Oi gente!! Esta blogada tem um algo de despedida, algo de coração aberto, algo de desilusão, algo. Pensei, repensei, fui ao banheiro, tomei uns cafés, muita água, e resolvi escrever. Pra bater o portão sem fazer alarde, como diria meu querido professor de Composição e Arranjo online...
Pra essa blogada, tenho que começar explicando umas coisinhas aqui e ali, estabelecer conceitos. Então, o conceito a estabelecer é o de Teologia da Libertação, algo que muita gente torce o nariz sem saber do que se trata. É, muita gente desce o cacete na Teologia da Libertação, sem entender coisa alguma do tema, ou ainda sem querer entender, por comodidade, preguiça ou burrice mesmo. Aliás, é o mesmo pessoalzinho que afirma coisas sobre ameaça comunista, vacina com chip e que reza pra pneu. Vamos refletir um pouco, antes de falar besteira!
A Teologia da Libertação, ou TdL, ao romper com conceitos tradicionais da Igreja e introduzir ideias de igualdade social e direitos humanos, e, modernamente, ampliar o discurso para o feminismo, o ambientalismo e as causas de gênero, a TdL resgata radicalmente a pregação inclusiva de Jesus de Nazaré. Afinal de contas, Jesus se posicionou “ao lado dos excluídos” a fim de conhecer suas necessidades. Uma passada de olhos pelo Evangelho nos mostra que Ele se encontrava com os doentes para curá-los, com os "endemoniados", com os cegos, com os coxos, com os paralíticos, com os aleijados, com as mulheres “sem marido”, ou de fama esquisita para os padrões daquela época, com as crianças, enfim, com todos aqueles que sofriam ou que tinham no corpo as marcas da dor. A finalidade de Jesus ao estar com as pessoas que carregavam na sua história a marca da opressão era de libertá-los de seus sofrimentos.
A América Latina, mergulhada em um ambiente de miséria e exploração, foi o epicentro para o encaminhamento dessa nova teologia. Aliás, não que fosse novidade, afinal as reduções jesuíticas lançaram bases importantes para a formação do pensamento socialista.
Foi nesse continente que perguntas indigestas mexeram com os dogmas de muitos religiosos. A questão fundamental foi constatar que aquela organização social marcada pela pobreza, pelo preconceito, pela destruição ambiental (ou apoio a esta), não estava nos projetos de Deus e que a Igreja mostrava-se inerte e, muitas vezes, colaborava com a realidade injusta presente no cotidiano dos latino-americanos.
Eduardo
Galeano, em seu célebre livro “As Veias Abertas da América Latina”, descreve a paisagem perversa dos diferentes países e resume a história desse continente. Mortes, violência, etnocídio, um processo de sucessivas pilhagens por parte dos projetos imperialistas das nações poderosas. E essa pilhagem, via de regra, com apoio
das elites locais. E tome pinochetazo, Operação Condor, “Redentora” e por aí
vai. E desaparecem com o Stuart Angel, o Tenório Júnior e o Rubens Paiva...
A TdL é
considerada como um movimento acima de conceitos de denominação, partidos políticos
e, acima de tudo, é inclusivista, pois engloba várias correntes de pensamento que
interpretam os ensinamentos de Cristo em termos de uma libertação de injustas
condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita pelos seus
proponentes como uma reinterpretação científica (no sentido que a Antropologia, Sociologia, Economia, etc, são ciências, no sentido literal da palavra) da fé cristã, em
vista dos problemas sociais. A maior parte dos teólogos da libertação é fortemente
favorável ao Ecumenismo, ao Feminismo, ao Ambientalismo, à luta antirracismo, etc. Aliás, houve, ao menos uma denominação cristã, que deixou órgãos ecumênicos em 2006. A tal denominação decidiu retirar-se de “órgãos ecumênicos com a presença da Igreja Católica e grupos não cristãos”. Sinal de comportamento reacionário e intolerante...
Bom, aí um ser usa o Facebook, em uma de suas trocentas páginas, e solta uma pérola: “desse pessoal da Teologia da Libertação, eu quero distância”. Bom, não preciso dizer que fiquei profundamente irritado. Primeiro, pela demonstração cabal de ignorância do ser, sobre tudo aquilo que falei ali acima. Em segundo lugar, a criatura dava mais uma mostra de ter opiniões bastante retrógradas, uma vez que já o ouvira falando mal dos islamitas. Pessoalmente, vejo que falar mal do islamismo se equipara a utilizar a palavra “comunista” como ofensa. É uma das três religiões abrâmicas monoteístas, logo não é tão diferente assim das outras duas. Com a vantagem aí de que, graças aos muçulmanos, a Europa foi civilizada, aprendeu a usar a Matemática, a Bússola, o Sabonete, o Álcool para limpeza, entre outras coisinhas que só vieram a conhecer por influência da ascensão árabe e moura à Península Ibérica. Falar pejorativamente dos seguidores do Profeta é dar atestado de desconhecimento da História do Mundo.
Mas vamos
continuar. O dito ser, ao proferir sua “opinião” sobre a TdL, praticamente me
convidou a me afastar definitivamente da denominação religiosa que frequentei
desde a infância Bom, se querem “distância desse pessoal da TdL”, então estão
puxando a descarga de algo que me manteve encantado com o Cristianismo, o raiz,
não esse de aparências, Teologia da Prosperidade e outras picaretagens. O
Cristianismo, para mim, tem sentido a partir da Teologia da Libertação e suas
vertentes. Esse é o Cristianismo que incentivou os movimentos ambientalistas,
feministas, de gênero, de campesinos e campesinas. Afastar “o pessoalzinho da
TdL” é tirar o que dá gosto e norte à igreja. Antes disso, afastar-se do diálogo ecumênico e inter-religioso demonstram uma fragilidade ímpar. Ora, a incapacidade de dialogar com o diferente, de encarar a diversidade de credos, demonstram o quanto os princípios ético-religiosos dessas pessoas é frágil. Afastar-se do diálogo, sair do play emburrado, é um ato de sectarismo dos mais traumáticos, nunca uma afirmação de fé. Ao contrário...
Aí sim, por todas essas razões, me considero expulso,
excluído e convidado a me retirar. Tchau, gente! Foi legal.