quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Pealo de Sangue: considerações sobre o autor e a canção

0. Preâmbulo

O texto abaixo foi publicado na versão 1.0 do blogue. Estou republicando-o e dei uma que outra atualizada...Originalmente, foi utilizado como parte de uma atividade do curso de Música no IPA, na disciplina de Regência Coral da professora (e baita cantora) Jaqueline Barreto.

 

1. O autor
Raul Moura Ellwanger nasceu em Porto Alegre, em 17/11/47. Foi aluno do velho e já falecido Instituto Porto Alegre, onde rolava uma bola redonda como centroavante ao final das aulas, ou, às vezes, ao invés das mesmas, joelhos ralados testemunhando as trombadas e divididas na pequena área, em busca do gol. 
 
Iniciou sua carreira artística em 1966, no circuito universitário de Porto Alegre, que se espelhava no movimento dos festivais do centro do país, aqueles da Record, Excelsior e outras emissoras. Em 1968 era estudante de Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e trabalhava como estagiário no escritório de advocacia de Afrânio e Carlos Araújo (aliás, ex-marido da ex-presidenta golpeada e atual chefona-mor do Novo Banco de Desenvolvimento, vulgo Banco dos BRICS). 
 
Desde essa época, Raul era um dos articuladores da tão marcante quanto efêmera Frente Gaúcha da Música Popular. A Frente, só pra situar, abraçava músicos diversos, entre eles o professor Paulo Dorfman e deu irmão César, Sérgio Napp, Cláudio Levitan, Fernando do Ó e outras lendas, como o maestro e, mais tarde, professor universitário, Norberto Baldauf. Pois bem dessa época, veio sua participação no festival da TV Excelsior, no Rio de Janeiro, com a composição O gaúcho, finalista no evento em 1968. Em anos de chumbo, a interessante e provocativa letra dedicava à ditadura de plantão: “pros milicos trago estrago, pro inimigo outro balaço...”.

Raul logo identificou-se com grupos que, mais tarde, viriam a formar a Vanguarda Armada Revolucionária. Nesse contexto, participou da reunião em que a VAR se cindiu e houve a criação da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, na qual permaneceu. Em 1969, por suas ligações políticas, o cantor gaúcho não pôde se apresentar no palco do V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Naquele evento, Paulinho da Viola conquistou o primeiro lugar com Sinal Fechado, uma linda e forte composição do grande músico carioca.

Com o endurecimento do regime, foi condenado pela nefanda Lei de Segurança Nacional por militância em organização proibida, passando à clandestinidade. Mudou-se para o Rio de Janeiro e com a prisão de dirigentes da VAR, parte para o exílio no Chile, em 1970. Ali estudou Sociologia na Universidad Concepción, na cidade de Concepción por um ano, depois se mudando para Santiago do Chile. 
 
Além da ajuda da família, contava com recursos advindos de aulas de violão e de traduções de artigos de sociologia que fazia para a revista da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), onde um de seus amigos mais próximos, Roberto Heinz Metzger, era diretor gráfico. Morava com sua então companheira Eliana (Nana) Chaves (que viria a ser mãe de Santiago Chaves Ellwanger) e a família de Roberto Metzger num pequeno apartamento, quando aconteceu o pinochetazo, ou seja, o golpe de 11/09/73 contra Salvador Allende. 
 
Os moradores do apartamento se dispersaram e ele passou para a Argentina, em 1973. Em Buenos Aires reencontrou Nana e, depois de dois meses, reviu Roberto, a quem ele procurara no Estádio Nacional e que passava pela Argentina rumo à França. Foi a Roberto e seu filho que compôs a belíssima Pequeno Exilado, tema lindo e emocionante, que gravou com Elis Regina. No exílio escreveu diversas canções, além de Pequeno exilado e Te Procuro Lá, esta a partir da letra do saudoso e, na época, também exilado, Ferreira Gullar.

Voltou para o Brasil em 1979, quando lançou seu primeiro disco, Teimoso e Vivo (1979), com a participação de Wagner Tiso, Zé Gomes, Beto Guedes e Jerônimo Jardim. É nesse trabalho que faz a gravação antológica de "Pealo de Sangue", com Nana Chaves dividindo os vocais. O arranjo de Zé Gomes traz uma atmosfera nostálgica, de alguém que amargou o exílio, viveu o tenso momento do golpe chileno e somente voltou ao Brasil ao prescreverem as acusações que o regime militar lhe impingira. Numa época em que Elis Regina se voltava a garimpar composições e compositores do sul, uma cópia da letra de Pealo de Sangue estava em sua inseparável cadernetinha de bolso, junto a outra canção, Moda de Sangue, de Ivaldo Roque e Jerônimo Jardim (sobre Jerônimo, aguardem blogada). Ah, se tivesse dado mais tempo....

Desde seu efetivo retorno ao país, Raul Ellwanger atua ativamente no cenário musical local, brasileiro e internacional, gravando outros discos, trabalhando em parcerias com músicos destacados, organizando eventos musicais, compondo trilhas sonoras para telenovelas, filmes e peças, recebendo vários e merecidos prêmios. Participou do antológico Paralelo 30 com Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb e outros grandes músicos da cena porto-alegrense dos anos 70, Na sua discografia se encontram também discos Raul Ellwanger (1980), Gaudério (1984), Portuñol (1985), Luar (1992), La cuca del hombre (1984), Boa-Maré (2004) e Ouro e Barro (2007). Como compositor de música para a TV criou o tema principal e a trilha sonora original da novela O Meu Pé de Laranja Lima (TV Bandeirantes), e teve músicas incluídas nas telenovelas Sinhá Moça (TV Globo) e Um Homem Muito Especial, Cavalo Amarelo e Pé de Vento, todas da TV Bandeirantes. Para o teatro compôs as trilhas sonoras das peças Em farrapos e Quarto poder, ambas de Delmar Marques.

Já gravaram composições suas intérpretes como Elis Regina, Mercedes Sosa, Renato Borghetti, Beth Carvalho, Paulinho Tapajós, Cenair Maicá, além da dupla Pena Branca e Xavantinho. Recebeu o Prêmio Selection Radio France International em 1992, e o Prêmio Açorianos da Prefeitura de Porto Alegre. Participou de eventos como a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana (Canto da Roda) e do Musicanto de Santa Rosa (Quero te ver, liberdade). Entre suas canções mais conhecidas está, justamente, Pealo de sangue, com 30 gravações em cinco países e quatro idiomas. Pealo de sangue foi apontada, em votação pública organizada pela RBS, como uma das dez melhores músicas da história do estado.

2. A obra
Sobre Pealo de Sangue, que foi primeiramente gravada no álbum Teimoso e vivo, há muito o que contar. Na gravação original, Pealo conta com arranjos do maestro Zé Gomes e é interpretada por Raul e por Nana Chaves. O instrumental com harmônica, violão de doze cordas e grupo de cordas (violino, viola, cello) é de uma riqueza única, dando ao apresentar timbres diferentes um entrosamento com as vozes límpidas que interpretam o tema. O arranjo traz ainda uma interessante flutuação de tom que o grande Zé Gomes apresenta no disco, que dá um impressionante efeito de crescendo à canção.

A mesma música reapareceu em vários discos, regravada pelo próprio Raul por duas vezes, uma com participação de Mercedes Sosa. Raul lembra que a música ficou muito conhecida “a partir de uma publicidade que teve de fim de ano, que foi muito bacana”. Mesmo sem ter uma característica comercial, a canção, “a partir daí, ganhou autonomia” e conquistou corações. É, sem dúvida, a música mais esperada nos shows de Raul. Lançada pouco depois da volta do exílio, Pealo de Sangue parece expressar as dúvidas carregadas pelo compositor e por sua geração: “que mistérios trago no peito? Que tristezas guardo comigo?”,
e que, cá pra nós, diante de nosso atual quadro, ainda se fazem presentes no ar...

Na letra, Raul revela a importância das raízes das quais ele teve que se separar por uma década, muito além de sua ancestralidade germânica e ligada à terra: “se meu canto é colono, é gaúcho/ lá no campo é que encontro abrigo”. Na letra da canção pode-se, ainda, ler o desejo de alcançar coisas bucólicas, que se perdiam e se perderam no horizonte: “quero só um pedaço de terra/ um ranchinho de Santa Fé/ milho verde, feijão, laranjeira/ lambari cutucando no pé/ noite alta um luzeiro alumian­do/ um gaúcho sonhando de pé”.

Chama a atenção o uso do “só”. Certamente a partícula é indicativa de que o que estava sendo buscado era “apenas” o que era considerado “de direito”, sem luxos, sem mordomias, a simplicidade ellwangeriana. A perspectiva da luta e a dimensão da utopia estão bem presentes na letra da canção: “Quando será esse meu sonho? Sei que um dia será novo dia, brotando em meu coração. Quem viver saberá que é possível, quem lutar ganhará seu quinhão”.
 
Raul é uma das pessoas mais generosas da cena musical gaúcha. Tem uma interessante história de militância pela classe artística, haja visto a Cooperativa dos Músicos de Porto Alegre, a COOMPOR, da qual participou ativamente. Nossos laços ipaenses nos aproximaram por várias ocasiões, inclusive no próprio Instituto, em um evento do curso de Música, quando eu já havia me graduado. Emocionado, o mestre mandou ver o hino da instituição, com o carinho ipaense de sempre. Não raro estava pelo estúdio experimental da casa, conversando um dedo de prosa da boa com o pessoal.  E, concordando com Raul, "sei que um dia será novo dia"!!! Gracias, mestre!!

O jovem de cabelos brancos na esquerda, ao lado do querido músico, compositor, regente, etc, Marcelo Delacroix, é o NOSSO Raulzito, na última sala de aula do lado esquerdo, corredor do piso superior do prédio A do IPA!



3. Bibliografia Consultada

CRAVO ALBIN, R. Raul Ellwanger. Disponível em http://www.dicionariompb.com.br/raul-ellwanger/dados-artisticos, acesso em 11/04/2016.]

ELLWANGER, R. 2009. A milonga dos vencidos. In: E.S. PADRÓS; V.M. BARBOSA; V.A. LOPEZ; A.S.
FERNANDES (orgs.). Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História e Memória. Repressão e resistência nos Anos de Chumbo”. Porto Alegre, ALERGS/CORAG, vol. 2, p. 81-94.

OLIVEIRA, S. Raul Ellwanger: “Faço hoje a música que sonhava em 1968”. Disponível em URL http://www.sul21.com.br/jornal/raul-ellwanger-faco-hoje-a-musica-que-sonhava-em-1968/, acesso em 11/04/2016.

PADRÓS, E.S., NUNES, C.L.S., LOPEZ, V.A., FERNANDES, A.S. Memória, verdade e justiça [recurso eletrônico] : as marcas das ditaduras do Cone Sul. Porto Alegre: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, 2011. 291 pp., ilustrada. Disponível em URL http://www2.al.rs.gov.br/escola/Publicações/tabid/2333/Default.aspx

RODEGHERO, C. S. Um pouco além do concebível: o Chile e a Argentina na memória de um exilado brasileiro. História Unisinos Vol. 16 Nº 1 - janeiro/abril de 2012.

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